“...ENTRE O ADOBE E O AÇO INOX”

O papel do arquitecto e do urbanista no Terceiro Mundo.

Os arquitectos e os urbanistas do Terceiro Mundo, e em particular da África ao Sul do Sahara, trabalham em condições que são substancialmente diferentes das condições de trabalho dos arquitectos e urbanistas do mundo industrializado ou desenvolvido.
As dimensões e a natureza dessas diferenças são, normalmente, medidas por indicadores económicos e sociais. Muito raramente podemos encontrar referencias às mudanças culturais e aos conflitos que, na nossa região, determinarão, inescapávelmente, novas estratégias e novas soluções para a forma das cidades e para a sua expressão arquitectónica.
Necessitamos uma nova estratégia para resolver a inevitável ruptura com as tradições técnicas e formais e com o legado colonial pois que ambos esses sistemas não respondem agora às novas ambições culturais e materiais dos povos da nossa região.

A adopção sistemática de valores e de formas importados de outras culturas, sociedades, climas e ambientes técnicos criaram, e continuam a criar aberrações, e a impor uma disciplina espacial e uma arquitectura que, em muitos casos, agrava as já dramáticas condições de vida da população urbana.
O nosso papel como arquitectos e urbanistas no Terceiro Mundo é, primariamente, o de aprofundar a compreensão das características económicas, sociais e culturais da nossa sociedade, ou sociedades, e das suas dinâmicas de transformação a fim de encontrar as soluções mais adequadas e necessariamente novas para os problemas espaciais e da construção.

As condições políticas, sociais, económicas e ambientais na África ao Sul do Sahara são bem conhecidas. Pequenos ajustamentos e actualizações são desnecessários para termos uma visão clara da situação. Devemos contudo precaver-nos contra generalizações fáceis pois que, dentro da região, existem enormes diferenças materiais e culturais entre os seus povos.

As condições culturais na região são menos conhecidas, compreendidas e consideradas.
O caracter dinâmico das recentes transformações na região, e suas consequências, são únicos tanto no seu âmbito como na velocidade com que grandes massas de população se transferem duma situação pré-industrial e tribal para o mundo dos valores materiais e da tecnologia da idade da comunicação.

As características ambientais e os frágeis ecossistemas ameaçados da região são realidades que o planificador e o arquitecto devem conhecer em profundidade e considerar como uma das suas maiores preocupações, na determinação das suas opções técnicas.
Nas circunstâncias presentes essas opções não são apenas extremamente limitadas mas elas podem afectar directamente o precário equilíbrio ecológico.
Escolhas erradas de materiais e de tecnologias, planeamento do uso da terra menos atento e projectos mal concebidos para o local ou para o clima têm impactos negativos e imediatos difíceis de contrabalançar, ou de corrigir, dentro das nossas desastrosas economias e das nossas dificuldades técnicas.
Todas estas condições e problemas são bem conhecidas, e foram-no já através das últimas décadas, mas a velocidade das transformações globais na região tornam cada dia mais urgente a pesquisa de soluções criativas, sem modelos em qualquer outro momento na história da civilização humana.
A necessidade duma nova disciplina espacial e de uma nova expressão arquitectónica é portanto uma consequência directa de todas essas circunstâncias excepcionais e não a consequência de pura especulação intelectual ou de formalismos esteticistas.
Ela é, de facto, consequência de uma coerência intelectual básica de uma atitude ética intransigente.

As transformações políticas, demográficas e culturais na região são, como se disse, espantosas na sua dimensão.
Taxas de crescimento populacional enormes, muito especialmente as da população urbana, associadas ao subdesenvolvimento da infra-estrutura e das estruturas produtivas e sociais, determinam uma necessidade colossal de actividade construtiva.
Temos que construir, e construir depressa, novas estradas, pontes, caminhos de ferro e linhas de transporte de energia, barragens e portos, hospitais e escritórios, bibliotecas, monumentos, casas.
Não temos, nem de longe, engenheiros, construtores, desenhadores, orçamentistas suficientes; não temos, nem de longe, suficientes arquitectos e urbanistas; não temos tempo para amadurecer os nossos projectos e conceitos nem para investigar ou para nos satisfazermos com a qualidade do nosso próprio trabalho.

Os nossos clientes definem-se como grupos sociais extremamente diversificados nos seus níveis económicos, sociais e culturais:
Uma larga massa de camponeses (mais do que três quartas partes da população) necessitando o planeamento das aldeias e projectos para os seus edifícios sociais e de produção; uma população urbana em rapidíssimo crescimento (a maior parte constituída por camponeses urbanos sem emprego e sem possibilidade de o encontrar), necessitando o ordenamento dos seus bairros, projectos de estruturas sociais e terra onde possam construir a sua casa e de onde tenham fácil acesso ao trabalho (quando existe...); finalmente um fino estrato de cidadãos completamente “ocidentalizados”, oriundos de uma vasta gama de tradições e níveis culturais com a ambição comum e poderosa de adquirir rapidamente um estilo e condições de vida iguais às dos seus homólogos em qualquer país desenvolvido.

Não há fronteiras económicas e sociais bem definidas entre estes três grupos. Todos eles têm um forte laço que as liga no desejo de adquirir, tão depressa quanto possível os supostos benefícios do desenvolvimento: uma vida mais longa, menos esforço físico para ganhar a vida, acesso à educação e á saúde, mobilidade e informação, a possibilidade de participar no processo político e acima de tudo a possibilidade de adquirir os bens de consumo que para todos se tornaram indispensáveis.

Finalmente um quarto grupo, este também em rápida e infeliz expansão. Um grupo para o qual as únicas ambições, quando ainda existem, são a de viver um dia mais, de encontrar os filhos ou os pais perdidos; em última análise dormir debaixo de um tecto. Esses são os deslocados pelas guerras, que não provocaram e de que são as maiores vítimas.
Encontramo-los por toda a parte, agora. Em campos de refugiados, na periferia das cidades, em aldeias escondidas no mato.
Contam-se por milhões e, cada dia que passa, o seu número aumenta.
Eles necessitam de milhares de casas, escolas, armazéns, lojas e maternidades queimadas.
Muitos não voltarão nunca para as suas terras, para as suas aldeias; ficarão nas cidades, cidadãos ocasionais, ou transformarão campos de refugiados em povoações permanentes. Outro golpe profundo na tentativa dum planeamento racional e equilibrado.

Estes são os nossos clientes.

Nós teremos que conceber e dirigir o processo de construção de todas as estruturas para todas as suas necessidades pessoais e sociais, dentro da mais estrita disciplina económica e técnica e, ao mesmo tempo, assegurar a dignidade da imagem que essas estruturas e instituições têm em qualquer outro contexto, incluindo a que tinham na época colonial.
A nossa não pode ser uma arquitectura envergonhada de si própria, uma arquitectura de pobres, uma arquitectura sem respeito pela expressão de valores espirituais e estéticos, sem profundas intenções poéticas.

As maiores condicionantes, as mais restritivas da expressão arquitectónica na nossa região são, naturalmente as materiais.
Com poucas excepções elas são comuns e gerais para toda a região, exceptuando-se algumas cidades onde pode ainda haver a ilusão de que não existem algumas ou são menores algumas dessas dificuldades.
Elas podem ser sumarizadas como se segue:
- falta de capacidade para os projectos arquitectónicos e técnicos, incluindo para desenhar, medir, fazer levantamentos topográficos, orçamentar, etc.
- falta de capacidade técnica para construir
- falta de materiais de construção, ferramentas, equipamentos, transportes e energia.
- falta de programas organizados e detalhados
- falta de legislação relevante e adequada e de capacidade para fiscalizar e controlar a sua aplicação.
- falta de meios financeiros e de capacidade para administração económica.

A falta de capacidade técnica é, provavelmente, a condição que afecta mais directa e imediatamente o trabalho do arquitecto e do urbanista.
Nós temos que conceber e desenhar os nossos projectos, de resolver muitas vezes e em grande parte os problemas estruturais, hidráulicos, mecânicos, eléctricos, etc., de estimar os preços, e realizar as medições, de escrever os cadernos de encargos e negociar os contratos; temos que treinar os nossos assistentes e ajudantes, fiscalizar a construção e, as mais das vezes, ensinar aos construtores, o que eles deveriam saber; temos, muitas vezes de fazer os levantamentos topográficos e de fazer o projecto paisagístico.
E temos de fazer tudo isto depressa.

 

 

 
 

O problema dos materiais de construção é também generalizado e difícil.
A região é um complexo de ecossistemas que estão sofrendo, em geral, a mais destrutiva forma de exploração.
A desertificação e a deflorestação, o sobre pastoreio e a erosão são os problemas mais comuns , mas a guerra e o crescimento urbano descontrolado trouxeram novas formas de degradação ambiental acelerada.
Os nossos edifícios devem ser pensados em função dos materiais disponíveis localmente mas o seu uso não deve contribuir para aumentar os problemas da degradação do ambiente.
A pedra para aparelhar ou usar directamente e para fazer cal para argamassas e pinturas é, geralmente, escassa.
A madeira, para lá de ser já sobre explorada é um precioso produto de exportação e objecto de intensa competição sobretudo para uso como combustível; madeiras leves (pinho e eucalipto, p. ex.) só com dificuldade se arranjam e são muito vulneráveis às térmitas; o bambu não existe generalizadamente, especialmente as espécies boas para a construção; a terra é talvez o material mais usado, em conjunto com paus redondos, canas e caniço, mas tem grandes limitações nos climas quentes e húmidos da região; não existem produtos metálicos acabados para a indústria da construção; o cimento e os produtos cerâmicos de barro vermelho são inevitavelmente os principais materiais modernos mas, dada a sua baixa produção, alto consumo de energia, e dificuldades de transporte, o seu uso deve ser feito com grande economia e descriminação.
Vidro plano, tintas, colas e vernizes, materiais de revestimento, de superfícies (laminados, linóleos, etc.), ferragens e equipamento eléctrico e mecânico são, geralmente, importados ou produzidos localmente à custa de componentes e partes importadas.
Esta dramática situação, que não melhora minimamente ao ritmo do aumento das necessidades e das esperanças dos povos, torna toda a região altamente dependente das nações industrializadas e tem um impacto tremendo nos custos da construção.
A ideia de que soluções que maximizam o factor mão-de-obra são mais económicas pode também ser falsa: a baixíssima produtividade e a péssima qualidade do trabalho podem, na realidade, resultar em custos agravados e prazos inaceitáveis.
Nestas condições é fácil compreender a necessidade de uma simplificação dos processos e de uma estrita economia de materiais como condições fundamentais para uma arquitectura possível na nossa região.
Tecnologias alternativas, também conhecidas como “doces”, “intermédias”, “básicas”, etc. são um importante campo de pesquisa e podem, dentro de certos limites, ajudar a resolver alguns problemas. Contudo, mesmo que tenham grande potencial, estas tecnologias exigem a presença permanente, ou quase permanente do projectista na obra ou na unidade de produção de materiais, como formador e supervisor. Isto limita enormemente a sua introdução e o seu uso.

As tecnologias alternativas são ainda novos processos e maneiras que, como as mais convencionais, tem de ser explicadas e aceites por uma sociedade que, especialmente dentro do campo da construção, não aprende facilmente senão pelo ensino directo e pela experiência prática; elas são difíceis de estimar em termos de custos e de prazos e, em muitos casos, dependem de equipamento, materiais e técnicos importados.
A perspectiva mais correcta parece ser a de vê-las como, ou dentro, de uma nova filosofia e introduzi-las no sistema de educação, particularmente nas escolas profissionais, criando nos estudantes uma compreensão profunda pelas condições reais dos seus países e preparando-as para o desafio de trabalhar nessas condições, e nos limites reais do seu ambiente natural e técnico.
Isto, infelizmente, está muito longe da realidade agora, e, como regra, a educação profissional e técnica para formar construtures, engenheiros, arquitectos e urbanistas está mais voltada para os treinar para operarem exclusivamente dentro do espectro das tecnologias de uso corrente no mundo industrializado.

Outro aspecto fundamental da selecção de tecnologias, dos materiais e do projecto é o problema da manutenção.
Nas nossas sociedades onde os recursos materiais são tão limitados e a cultura técnica tão incipiente, a resistência dos edifícios ao mau uso e a sua durabilidade e facilidade de reparação e manutenção devem ser parâmetros primordiais da qualidade no comportamento das estruturas.

A degradação de um edifício, ou de qualquer outro artefacto, é um processo muito mais rápido em situações como a nossa em que a maioria dos utilizadores não conhece os princípios científicos da sua operação nem os processos técnicos da sua produção.

Os nossos clientes, institucionais ou privados, não conhecem ou não sabem como exprimir as suas necessidades : como em qualquer outra situação eles confundem poder económico ou político com autoridade intelectual e os seus objectivos políticos não coincidem, necessariamente com objectivos sociais válidos. Confundem forma e conteúdo.
Em muitos casos são chamados especialistas estrangeiros para elaborar os programas, definir os orçamentos e aconselhar tecnicamente..
Isto nem sempre é a melhor solução pois que a compreensão, por esses especialistas, das condições locais e das realidades nacionais é, normalmente, adquirida através de contactos superficiais, dados estatísticos e trabalhos académicos.

A responsabilidade pela preparação e elaboração de programas completos e realísticos para os nossos edifícios é, provavelmente, uma das melhores oportunidades para exprimir novas atitudes e para soluções criativas reflectindo a nossa realidade, objectivos sociais e limitações.

A falta de regulamentos da construção realísticos e flexíveis que considerem e integrem as capacidades e as necessidades da maioria da população é um problema principal e um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento de tipos de edifícios e de tecnologias coerentes com a nossa fase de desenvolvimento.

As limitações financeiras aos investimentos na construção são bem conhecidas e compreendidas. Em países sem moeda convertível os investimentos na construção, que têm uma grande componente importada, não oferecem incentivos aos investidores pois que os lucros devem ser realizados em moeda nacional. Os maiores investimentos são assim sistematicamente feitos pelo estado ou por organizações para-estatais em competição, dentro do orçamento nacional, com as verbas destinadas ao exército, à educação e á saúde, e para pagar a um contingente cada vez maior de funcionários, sem falar dos sacrifícios impostos pelo pagamento da dívida externa. Os programas sociais são inevitavelmente empurrados para a responsabilidade dos doadores ou das agências internacionais, cujos interesses não coincidem, necessariamente, com as necessidades reais do país.
Uma estratégia global para a construção não pode depender da ajuda internacional e é, mais uma vez, nossa responsabilidade transformar as oportunidades, que essas agências oferecem, em edifícios seminais e atitudes modelares e maximizar a sua rentabilidade em termos de quantidade e qualidade do espaço.

Os problemas urbanos a que fazemos face não tiveram, até agora, qualquer solução, estratégia ou método válidos.
Na África ao sul do Sahara este problema é agravado pelo facto de que a maior parte do aumento da população urbana é devido à migração de famílias camponesas para as cidades, onde os seus ofícios, capacidades tradicionais e realidades culturais são quase irrelevantes.
As necessidades espaciais desses novos habitantes das cidades incluem, ou deviam incluir, áreas de produção agrária - mas isto entra em conflito com os conceitos estabelecidos para o ambiente urbano - que é o que os atraiu em primeiro lugar.
A impossibilidade de desenvolver a indústria, os transportes e os serviços a ritmos de crescimento remotamente semelhantes à do crescimento da população, e a impossibilidade de oferecer trabalho assalariado no sector agrário têm como consequência imediata a criação de uma vasta classe de desempregados, praticamente inimpregáveis, e cria uma situação de deterioração das condições sociais e espaciais acelerada em todas as maiores cidades africanas.
A solução para estes problemas depende, primariamente, das estratégias globais do desenvolvimento, da divisão internacional do trabalho e de atitudes esclarecidas dos políticos locais.
O urbanista e o arquitecto podem e devem participar na procura dessas soluções propondo novos conceitos e disciplinas espaciais libertadas das imagens e modelos coloniais (e válidas apenas dentro desse sistema) e libertadas também de imagens importadas e modelos provenientes de outras culturas, economias e ambientes.

A nossa cultura urbana não parece ter criado uma imagem clara do seu domínio físico. Parece no entanto poder dispensar de um certo número dos ingredientes mais comuns dos centros das cidades dos países industrializados.
Os traçados regulares, lineares e monumentais das grandes avenidas e boulevards e praças monumentais não servem, de facto, qualquer necessidade identificável da grande maioria da nossa população. Mas continuam a ser impostos e construídos. Pelo contrário, um uso produtivo da terra urbana, equilibrado com uma distribuição regular de centros de serviço e mercados minimizando transportes e criando emprego poderia criar um novo e possível ambiente urbano.
Partindo deste nível de considerações espaciais o arquitecto e urbanista devem ter a inteligência e a coragem intelectual para fazer face a condições extraordinárias e encontrar soluções extraordinárias.

 

 

 
 

Muito tem sido já dito também sobre o sector informal da economia nas cidades do Terceiro Mundo. A sua importância foi reconhecida e aceite como uma contribuição principal para a subsistência de grande número de pessoas.
Devemos contudo fazer notar que, na nossa região os limites à actividade deste sector são muito mais estritos pois que os sectores administrativo, industrial e de serviços não estão, praticamente em expansão. Há muito menor transposição de factores económicos de um sector a outro pois que não há, por exemplo, subprodutos que sirvam de base a pequenas industrias, artesanatos ou serviços.
Em comparação com as grandes cidades da Ásia ou da América Latina os centros das nossas cidades tem pouco significado para a maioria da população. Há sim, pelo contrário, o desenvolvimento de uma relação simbiótica com o hinterland agrícola periférico e uma crescente agricultura periurbana de subsistência e de mercado.
Isto parece uma tendência positiva e, talvez, a única esperança para centenas de milhares de famílias.
As nossas cidades deveriam provavelmente ser estruturada de acordo com esta tendência e parecer-se cada vez mais com agregados de comunidades agrárias com uma hierarquia bem definida de serviços e um máximo de auto suficiência de emprego.
Isto libertaria os transportes para o centro da cidade e criaria grandes reservas de tempo e capacidade para actividades produtivas e culturais.
Com as nossas economias negativas, paralisadas ou marginalmente positivas e taxas de crescimento demográfico explosivas, é vital encontrar alternativas às estratégias clássicas de desenvolvimento. A população das nossas cidades começa a encontrá-las por si própria e é a nossa responsabilidade como urbanistas e arquitectos compreendê-las e ajudá-la a resolver melhor os seus problemas espaciais.

A habitação, vista neste contexto, é muito mais do que um certo número de unidades construídas, com as suas imediatas extensões espaciais. A habitação é um conceito que deve incluir as actividades produtivas e os seus necessários espaços.
A compreensão e aceitação deste conceito é fundamental ao processo de criação e funcionamento das nossas novas cidades, assim como é fundamental torná-lo conhecido e aceite pelos poderes políticos e pelos orgãos de decisão. É necessário aprender a organizar o espaço segundo este conceito, perceber-lhe os mecanismos especulativos, e prever a dinâmica dos fenómenos sociais e culturais que vai estimular.
Mas, se são estas as forças e algumas das maneiras possíveis de organizar a grande cidade para a maioria da população, temos ainda a outra cidade para cuidar: a cidade central, da administração, do porto, das áreas industriais, dos caminhos de ferro e aeroportos.
Não é menos nossa responsabilidade planeá-la, respondendo às necessidades do sector “ocidentalizado” da população, do trabalhador, do escritório e da fábrica, do especialista, do empregado público, do quadro político, do professor e do estudante universitário.

São estas as limitações materiais, técnicas e sociais e as condições da nossa expressão arquitectónica e espacial; são estas as nossas necessidades espaciais necessitando uma nova disciplina do espaço; são estas as dificuldades que temos que enfrentar operando dentro de um ambiente cultural onde antigas tradições de vida e as suas correspondentes formas e modelos, imagens e símbolos são agora postos em causa, rejeitados e impossíveis de transpor para responder a novas atitudes e esperanças.
É dentro destas condições e circunstâncias que devemos assumir a responsabilidade de ser os criadores das formas construídas de uma nova ordem social.
Temos que projectar e construir os novos símbolos, propor a nova imagem e criar as referências visuais para um sentido de identidade nacional recentemente adquirido.
Cada novo edifício é uma oportunidade e uma contribuição inevitável para a definição dessa nova imagem. Na nossa situação, onde não existe muito e não se constrói muito, cada nova estrutura tem um impacto desproporcionado, tem enormes consequências e significado.
Excluindo a horizontal do Sudão, algumas zonas da Costa do Indico, alguma arquitectura vernácula da África austral e episódios como o Grande Zimbabwe, a nossa região, enorme na sua extensão, não apresenta modelos arquitectónicos ou uma gramática formal que possam ser facilmente assimilados como linguagem para os nossos edifícios e estruturas, sociais, produtivas, culturais ou habitacionais, para lá do anedótico ou meramente estilístico, num sentido quase gráfico.

Existe, certamente, uma tradição formal muito rica, com grande variedade de tipos, formas, ritmos e grande engenho e revelando grande habilidade e destreza. Mas os novos requisitos ambientais e estruturais a que os nossos edifícios devem responder não são inteiramente compatíveis com essas maneiras tradicionais.
Não podemos construir uma sala de operações com paredes de terra maticada e chão de terra amassada com bosta de vaca; não podemos cobrir uma biblioteca com macuti (folhas de palmeira); não podemos construir uma sala de aula sem luz suficiente, um laboratório sem serviços, um escritório sem computadores.
As famílias, agora, precisam de luz depois de escurecer, mais água, melhores condições sanitárias; a sociedade necessita de identificar os lugares do poder e da administração pública com estruturas permanentes.

Tal como as cidades da Europa, e do resto do mundo necessitam das suas catedrais e dos seus castelos, das suas muralhas e das suas praças, tal com a cidadezinha americana típica necessita da sua praça do tribunal e da igreja, nós necessitamos dos símbolos tangíveis de uma nova ordem social superior à tribal e diferente da colonial.

As sociedades tradicionais da nossa região não tiveram que responder a esta escala de problemas e não tinham que competir com standarts internacionais, imagens e conceitos de respeitabilidade e dignidade. Nós, agora, temos que criar uma arquitectura que exprima essa nova ordem social, e não há muito que possamos tirar das nossas tradições técnicas e formais.
Por outras palavras - a nossa revolução político-social, que resultou de e determinou uma revolução cultural, só poderá atingir os seus objectivos mais profundos através de uma revolução técnica que exige e determina uma expressão estética nova.
A tendência tem sido, até agora, a de tentar encontrar esta nova expressão através da racionalização dos parâmetros técnico-ambientais.

O conceito de “arquitectura tropical” apareceu como uma tentativa de criação de bases teóricas para uma metodologia do processo criativo e projectual na nossa região.
Certamente que, dentro desse conceito geral, investigações de grande relevância levaram ao estabelecimento de um corpo de doutrina e de um sistema de parâmetros para as dimensões quantificáveis da arquitectura e do urbanismo na nossa e noutras regiões tropicais.
O problema, contudo, tornou-se mais complexo quando esses parâmetros foram tomados como um conjunto completo e integral e informaram um método exclusivo de projectar e se gerou um enfoque tecnocrático legitimizando o desprezo por qualquer dimensão não quantificável do processo de concepção arquitectónica.
É como se fosse legítimo criar uma teoria para uma “arquitectura temperada” ou para uma “arquitectura fria” aplicando-as como método geral através da Europa da América do Norte, da Ásia e das altas latitudes!..

Contra este enfoque generalizador e restritivo começa hoje a desenvolver-se a doutrina, já codificada nalguns trabalhos publicados, que defende uma arquitectura e um sistema de planeamento físico exclusivamente baseados na recuperação das tradições locais da organização espacial e da expressão arquitectónica.
O estudo antropológico das disciplinas cosmogónicas dos espaços sociais e familiares levou, talvez directamente demais, a propostas que, inevitavelmente, se chocam com a nova ordem social e da organização da família.
Este novo enfoque não deixa de ter os seus perigos numa região tão ansiosa por encontrar a sua identidade formal.

Folclorismos e transposições formais superficiais devem dar o lugar a uma análise morfológica e topológica séria da organização espacial e da expressão plástica das sociedades tradicionais.
O mundo formal de uma sociedade e o significado cultural das suas formas são certamente fundamentais e devemos compreender-lhe os princípios. A validade das transposições formais estabelece-se apenas se as velhas formas e ritmos forem compatíveis com as novas formas da organização social, com os novos modelos de vida e com as novas relações transcendentais.

Assim encontramo-nos entre a tecnocracia e o folclore, entre o adobe e o aço inox, entre camponeses urbanos e ambiciosos executivos, entre habitação económica e monumentos, entre o vernáculo, o colonial e o tecnocrático.

A expressão estética do ethos de uma sociedade não é terreno para brincadeira ou experiências. O arquitecto e o urbanista devem saber temperar as suas limitações culturais com as dos seus “clientes”.
As expressões canónicas das tipologias normalmente associadas às imagens da “civilização” ou da “política, estão bem arreigadas nos espíritos do povo e dos poderosos e não podem ser facilmente recusadas, rejeitadas ou substituídas.

O jornal, a revista, o filme e a TV trazem e disseminam essas imagens enraizando-as cada vez mais profunda e progressivamente numa cultura cada vez mais indiferenciada.
Sofrer o calor tropical com uma gravata ao pescoço ou gelar num ambiente super arrefecido tornou-se quase obrigatório na nossa região, tal como guiar preferivelmente um Mercedes ou beber exclusivamente Chivas - como sinal da aquisição de hábitos “civilizados”.
A ideia é a de que a forma é mais fácil de adquirir do que o conteúdo, ou talvez de que através da forma se chegará ao conteúdo...

Uma arquitectura mais em consonância com as nossas condições é ainda muito difícil de aceitar. Os nossos edifícios devem ter ar condicionado mesmo se os custos da energia e as dificuldades de manutenção os tornam muito mais caros e, em última análise, muito mais desconfortáveis - e nós somos obrigados a projectar de acordo com o clima e depois introduzir o ar condicionado - retirando à quantidade e qualidade do espaço o seu custo; a terra ainda não é o nosso maior problema mas pedem-nos que projectemos edifícios em altura mesmo se os elevadores estão sempre avariados e não podem ser facilmente reparados... porque nós também temos que ter a nossa silhueta moderna, os nossos arranha céus.

Naturalmente que a necessidade de imagens emprestadas não é só consequência de provincianismo cultural. Os mecanismos especulativos que criaram essas imagens e realidades noutros contextos são exactamente os mesmos e muito presentes nas nossas cidades. Muitas vezes também não muito longe do benefício dos poderosos e dos que tomam decisões.

O urbanista e o arquitecto devem então fazer este equilíbrio contínuo entre a especulação e o benefício social, entre o sonho e a realidade. Eles têm que saber encontrar as formas que assegurem a dignidade da imagem sem lhe falsear o conteúdo.
A irrelevancia, a superficialidade e mesmo a covardia intelectual de adoptar cegamente modelos doutros contextos sócio-económicos e culturais, a falsidade de que os materiais, as tecnologias e as condições ambientais são as determinantes exclusivas da expressão arquitectónica, o caracter muito particular das circunstancias e condições descritas, tudo isso nos conduz a uma situação e a um momento em que, como organizadores do espaço e arquitectos, somos forçados a inventar novas soluções e formas de expressão, cujas regras formais não estão ainda codificadas (senão como princípios universais...)

 

 
 

Quanto poderemos aprender do stock existente de formas e de espaços?
Quanto poderemos tirar do vernáculo e quanto do “fino” colonial?

Conhecemos as condições técnicas e culturais da produção das formas vernaculares e sabemos que essas condições mudaram. Voltamo-nos também para a evolução da arquitectura colonial e para as tecnologias que utilizou, não para revalidar o seu significado histórico mas porque reconhecemos na sua estratégia técnica e mesmo nas suas condições de produção muitas das nossas actuais limitações. Fazemo-lo ainda porque temos que lhe reconhecer e aceitar a presença e a sua importância como um aspecto inegável da complexidade da formação do nosso ambiente cultural e estético.

Esta avaliação só agora é possível, agora que passaram mais de duas décadas depois da vitória dos primeiros movimentos de libertação colonial, agora que já é possível uma perspectiva histórica sem paixão ou medo de falsas interpretações acerca das suas motivações. Ou, pelo menos, deveria ser possível.
Este novo interesse não deixa também de ter os seus perigos pois que nasce num momento em que, como reacção às simplificações racionalistas, se adoptam facilmente novas modas e classicismos formais como se uma linguagem do nosso tempo não pudesse ou não devesse ser procurada ou inventada.

Como arquitectos e urbanistas, como intelectuais e como artistas estamos divididas entre dois mundos, duas sociedades coexistindo e vivendo em condições extremamente diversas. Nós temos que ser capazes de estabelecer uma ponte entre elas e desenhar edifícios que sirvam bem a ambas.
Este “exercício” não pode acabar com uma fórmula ou mesmo com algum método mais ou menos provado, ainda que apenas pessoal. Parece-me evidente que a procura de uma nova arquitectura para a nossa região, ou regiões, exige uma incansável e intransigente capacidade para questionar as nossas opções em termos da sua validade económica, social e técnica, uma investigação permanente sobre os princípios formais de validade universal, uma crescente capacidade para perceber e ser sensível às dimensões poéticas do nosso mundo, da nossa sociedade e da vida ela própria.

Há aqui, como em qualquer outro lado, uma multiplicidade de papeis que os arquitectos e urbanistas podem desempenhar. Como qualquer outro membro da sociedade ele tem uma responsabilidade política; como profissional ele deve estar consciente das dimensões políticas e das consequências do seu trabalho mas, como artista ele tem responsabilidades que só ele pode assumir.

As estratégias de desenvolvimento definem-lhe o papel e o âmbito de trabalho e os limites da sua intervenção e da sua utilidade para os diversos sectores da sociedade.
A atribuição de recursos para benefício de um ou outro dos estratos sociais é uma decisão política para a qual o arquitecto ou o urbanista têm pouco a contribuir.
Tem havido um desperdício enorme de capacidade e energia e a perigosa ilusão de que através da arquitectura e da organização do espaço se pode definir ou influenciar decisivamente o processo de desenvolvimento.

Como arquitectos e urbanistas temos muitas vezes alienado as nossas responsabilidades técnicas e artísticas, tentando resolver problemas políticos e temos sido incapazes de responder a objectivos validos de ordem social e política por causa da nossa incompetência técnica e artística.
Os limites da nossa responsabilidade são difíceis de estabelecer nas nossas presentes condições: por um lado devemos trabalhar ao nível do povo, devemos resolver problemas espaciais urgentes: projectar o “bairro”, organizar o espaço comunal deixado pela especulação e ocupação desordenada, desenhar o mercado, a escola, a latrina, a casa; por outro lado temos que projectar o edifício de escritórios, o hospital, a universidade, a praça, a Assembleia Nacional, os monumentos;
Ao longo deste processo devemos ensinar e treinar os nossos ajudantes e os futuros arquitectos.
Noutros países talvez tudo isto seja diferente mas, mesmo na Europa, onde parece haver um grande excedente de arquitectos urbanos eles não parecem ser suficientes para resolver os problemas das periferias urbanas degradadas, a devastação das aldeias ou a destruição generalizada da costa do Mediterrâneo... para mencionar apenas alguns dos casos em que a ausência ou a incompetência dos arquitectos tiveram consequências directas.

Provavelmente não há grande diferença no papel dos arquitectos e urbanistas entre o Primeiro, o Segundo e o Terceiro Mundos. Isso será para vocês definirem mas, tal como para vocês, trabalhando no mundo industrializado, o papel do arquitecto e do urbanista do Terceiro Mundo, não é muito difícil de definir - é sim, muito difícil de cumprir.

JOSÉ FORJAZ

© JOSÉ FORJAZ ARQUITECTOS 2004